segunda-feira, 27 de junho de 2011

Texto: Pará. Vítima da história.

Lúcio Flávio Pinto
Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)

O que vai acontecer ao Pará? Esta é uma pergunta que deixou de ser retórica. O Estado se encontra em questionamento, a começar pela sua integridade física. O momento seria para reflexão profunda e ação conseqüente. Mas falta liderança para essa missão.
O Pará está em transição, em trânsito e em transe.
A começar por sua própria base territorial. Na sua configuração atual, se fosse um país, o Pará seria o 25º mais extenso do mundo. No continente latino-americano, só estaria abaixo do próprio Brasil e da Argentina, superando o país seguinte na lista, a Colômbia.
O paralelo não deixa de ter algum significado. A principal marca colombiana nos últimos 60 anos tem sido a violência. O Pará é um dos Estados mais violentos do Brasil, a violência no amplo espectro da sua expressão: desde a morte de pessoas, incluindo assassinatos por encomenda (e a preço vil, se é que se pode estabelecer valores para a eliminação da vida), até a destruição da natureza, às vezes por motivações torpes e primárias.
Não por coincidência, no início da temporada de verão, o Pará volta à sua sombria liderança em destruição da floresta e em execuções de pessoas consideradas indesejáveis ou hostis aos interesses dominantes. Uma coisa tem muito a ver com a outra: o desmatamento é o ritual da extração da riqueza fácil e valorizada, a madeira, que encomenda os assassinatos dos que se opõem a essa prática, ou concorrem com ela.
Por tamanho físico, o Pará, se fosse um país, estaria logo abaixo da África do Sul, no 25º lugar do ranking. Essa é outra comparação que lança luzes sobre a situação atual do Estado. Como a nação africana, o Pará tem um subsolo extremamente rico em minérios. Embora a pesquisa geológica sistemática abarque apenas uma pequena fração dos seus 1,2 milhão de quilômetros quadrados, o Pará já é a unidade federativa que mais exporta minério de ferro do mundo.
É também o maior produtor mundial de alumina, o 3º maior produtor internacional de bauxita, significativo produtor de caulim (o de melhor qualidade do mercado para papéis especiais) e com crescente participação em cobre e níquel. É uma pauta de exportação mineral mais diversificada do que a da África do Sul, cuja atividade econômica é muito mais antiga do que a do Pará.
A África do Sul ainda tenta resolver seu principal problema, o racial, herança dos longos anos de política segregacionista dos colonizadores brancos. No Pará a diferença de raça não tem a mesma gravidade, embora haja uma questão de raça (ou de etnia, melhor dizendo) a desafiar a capacidade de tolerância, compreensão e absorção dos grupos sociais dominantes.
Os índios são das "menores minorias” dentre as principais no Estado, mas pela densidade da sua cultura, da sua ancestralidade, da sua existência territorializada e da sua anterioridade, impõem – e exigem – uma política específica para eles por parte do poder público, que dispõe de meios para impor essa atitude a toda a sociedade envolvente.
Há, contudo, outras minorias – mais expressivas no aspecto quantitativo e conjuntural – que, por sua condição, também estão a cobrar atenção e providências das autoridades. No entanto, conforme constatam representantes do poder público, quando se deslocam da sede da burocracia estatal para inspeções meteóricas ao hinterland (cada vez mais reduzido à condição de sertão), a principal ausência nesses grotões é a do Estado, tanto o ente federativo quanto a ameba nada metafísica do governo central, a União.
A pedra de toque da vida nessas porteiras agrestes disfarçadas de cidades (muitas vezes meros acampamentos nucleados para as investidas ao interior) é o conflito. Toda a estrutura social está enxertada e infiltrada por conflitos – de todas as naturezas e de variadas motivações. O combustível do cotidiano é o caos, às vezes organizado, outras vezes anárquico, incontrolável.
Em 1975, os tecnocratas brasilienses, avalizados pelas espadas dos comandantes militares que a eles se juntaram, previram que teria que ser assim mesmo. Não seria possível de outra forma desenvolver aceleradamente a Amazônia, como os feiticeiros do "milagre econômico” dos anos de 1970 pretendiam, para criar o Brasil Grande (com muitas alquimias, mas sem poupança real, como até hoje).
Para fazê-la crescer mais do que o país, como queria o II PDA (Plano de Desenvolvimento da Amazônia) para o qüinqüênio 1975/79, era preciso conviver com os desequilíbrios. O crescimento veloz, que transformaria a região numa usina de divisas para o país, através da exportação maciça, provocaria esses desajustes por força do seu próprio mecanismo de ação.
Ciente desse efeito negativo, o feitiço posto no mesmo frasco da poção mágica, através da consubstanciação da sangria do capital estatal (destinado, sobretudo, para a "burguesia nacional”) e o derrame de capital estrangeiro, o Estado estaria sempre presente nas lonjuras do sertão, acompanhando cada S/A, cada João da Silva, cada assentamento, cada mineradora, ao lado da rodovia ou da ferrovia, da nova cidade ou da hidrelétrica. Assim, transformando em planejamento centralizado e em poder de polícia a sua jurisdição, o poder central corrigiria os desequilíbrios decorrentes do "modelo de ocupação”, que privilegiava uns poucos e deserdava a tantos.
Mas, atenção: como no filme hollywoodiano, o piloto sumiu. O desequilíbrio continuou a existir, se reproduzindo e se alterando, mas o agente da correção, com os poderes da sagrada delegação dos cidadãos, ficou acantonado na sede burocrática. Enquanto isso, os convidados do banquete e os recrutados para a aventura fluíam para os lugares onde havia riquezas naturais em condições de serem transformadas em mercadorias. A migração se intensificou, o espaço foi sendo ocupado, os contrastes se alargaram, os conflitos se agigantaram e os desequilíbrios escaparam a qualquer controle.
Podendo ser o 25º maior país do mundo em território, o Pará seria o 97º em população. Na visão dos sacerdotes da ocupação como meio de "integrar para não entregar”, que são os geopolíticos de gabinete (ou de comando), ótimo: há ainda terras a desbravar (que cabe ao bandido amansar, enquanto não chega o mocinho, se mocinho ainda há na res publica).
A população ainda é insuficiente para garantir a segurança nacional contra cobiças internacionais – antigas ou hodiernas, consumadas ou especuladas. Se fosse país, o Pará teria a 97ª maior população do mundo, um contraste com a sua posição territorial, como 25º em extensão. Que prossiga, pois, a máquina de desmatamento e de transformação do reino da natureza em condição humana (isto é, sem a mata selvagem e seus apêndices, inclusive humanos).
Se o poder público é o grande ausente das frentes pioneiras, que se multipliquem suas representações, fracionando o território e reproduzindo o aparato burocrático. É o grande mote das bandeiras de emancipação dos dois novos Estados, de Carajás e do Tapajós.
Essa determinação categórica possui, entretanto, um mal de origem: o surgimento de três unidades federativas onde atualmente há apenas uma deverá reproduzir os problemas e queixas, ao invés de resolvê-las. O que acarreta as distorções não é o excesso de terra a ser jurisdicionada pelo governo local ou a insuficiência de gente para melhorar a relação habitante/quilômetro quadrado, que asseguraria a soberania nacional sobre a fronteira, mas o "modelo” de ocupação, embora de pé quebrado.
É incontestável que esse modelo proporcionou crescimento econômico acelerado. As exportações do Pará se multiplicaram 30 vezes desde que o II PDA entrou em vigência. Hoje o Pará é o 2º Estado que mais divisas proporciona ao Brasil, além de ser o 6º maior exportador bruto. É o 5º maior produtor e o 3º maior exportador de energia do país.
Mas os indicadores sociais são africanos, como já se registrou inúmeras vezes no passado e o porta-voz da elite belenense, O Liberal, finalmente alardeou na capa da sua última edição dominical. Não por acaso, quando tudo faz e a tudo recorre para impedir o político mais influente do Estado no além-divisas, Jader Barbalho, de assumir sua cadeira de senador.
Em dezenas de editoriais e notas na sua coluna de maior prestígio, o Repórter 70, o jornal dos Maioranas repete, há meses, que a carreira de Jader como ladrão do dinheiro público tem 25 anos, desde que ele teria desviado recursos do Banco do Estado para sua conta particular, durante o exercício do primeiro mandato como governador. Nesse período ele acumulou dois mandatos de governador, um de senador e um de deputado federal.
Nunca nenhum político paraense foi mais combatido pela grande imprensa nacional, que o escolheu como símbolo do enriquecimento ilícito, na sucessão dos paulistas Ademar Barros e Paulo Maluf. Ainda assim, Jader foi o segundo mais votado na eleição para o Senado no ano passado e continua a ser a estrela mais brilhante nacionalmente na opaca constelação de representantes do povo paraense. Para desespero dos Maioranas, suas empresas de comunicação resistiram à concorrência do adversário e, no segmento de impressos, já suplantou o grupo Liberal.
A reação dos Maioranas a esse fato surpreendente consiste em alegar que tal façanha só foi possível pela utilização de dinheiro público, argumento que tem seus fundamentos e é histórico (vários jornais se valeram indevidamente, ao longo do tempo, dos estoques de papel da Imprensa Oficial do Estado). Mas se a tentativa dos irmãos Ronaldo e Romulo Jr., de desenvolver carreira política, tivesse sido bem sucedida, eles não teriam feito o mesmo?
A julgar pelo uso que deram ao dinheiro da Sudam, a especulação pode ser considerada positiva. Os dois dirigentes das Organizações Romulo Maiorana não fraudaram apenas sua contrapartida de capital próprio aos recursos dos incentivos fiscais, objeto da ação penal proposta pelo Ministério Público Federal, em vias de sentença na 4ª vara da justiça federal, em Belém.
Eles também recorreram a notas fiscais frias para atestar a existência de uma obra física que nunca construíram e que teria sido posta abaixo por um estranho vendaval, que só atingiu o galpão de sua fábrica, no distrito industrial de Ananindeua, crime que não constou da denúncia do MPF.
O maior ou menor dano ao erário pelas elites paraenses depende, portanto, do grau de poder ao qual têm acesso, o que inclui, como componente de grande expressão, o controle de meios de comunicação de massa. Graças a jornais, emissoras de rádio e televisão, e outras mídias, os poderosos da terra induzem e manipulam a opinião pública conforme seus interesses, dentre os quais estão o apetite pela rápida riqueza e a imobilização (ou destruição) das alternativas de representação da sociedade.
O exercício pleno desse poder criou um mundo fechado e fantasioso pelo qual circulam esses atores privilegiados. Uma dessas gaiolas das loucas, para usar a incisiva expressão teatral, era a Assembléia Legislativa do Estado. A presunção de impunidade levou ao cometimento de irregularidades e ilegalidades que beiram o padrão dos ladrões de galinha. Se não os superam.
Todos os tipos penais foram caracterizados na apuração dos fatos delituosos cometidos por funcionários (reais ou fantasmas, efetivos ou agregados) e parlamentares. A sociedade se cansou de se escandalizar com cada nova revelação, mas é de se pôr em dúvida a crença de muitos de que tudo continuará como estava: impune.
A credibilidade das lideranças locais foi seriamente atingida pela sucessão de querelas e conflitos. A intensa troca de acusações, caracterizada pela falta de argumentos de defesa e de sobra de denúncias sem resposta, está deixando o Pará sem figuras de referência. Tem-se generalizado a descrença em relação às causas apresentadas pelos líderes, presos aos seus esquemas e interesses privados ou corporativos, incapazes de levar a sério e defender causas coletivas, de interesses difusos na sociedade.
Vítima da União durante o regime militar, que lhe expropriou literalmente manu militari seu patrimônio fundiário, o Pará não consegue reaver sequer as áreas que lhe deveriam ser devolvidas por imposição constitucional clara e categórica, como as ilhas e as faixas de terras litorâneas. O governo de Ana Júlia Carepa abriu mão desse direito porque em Brasília estava o companheiro Lula.
Acima da causa do Estado, o PT, um verdadeiro partido orgânico (e também fisiológico), coloca o interesse partidário. Por isso, a governadora petista se submeteu à ordem nacional petista. O PT queria regularizar a situação dos varzeiros, de quilombolas e outros clientes agrários, à custa da omissão (ou da conivência) do Estado e de papéis concedidos que, no apurar das contas, não terão o valor que lhe atribuem, de propriedade.
Mas e agora: nada mudou? Não é apenas porque agora o governador é tucano que a submissão deve ser substituída por uma atitude decidida: é porque a causa é inteiramente justa, legal, amparada pelo direito. Velhos e superados conceitos sobre a maré de determinado ano do século XIX e incrustações arcaicas não resistirão ao menor questionamento jurídico, pondo fim a essa anomalia herdada do centralismo hegemônico, que apenas muda de banda (ora de direita, ora de esquerda).
O Pará precisa de um perfil exato, de uma imagem verdadeira, capaz de retratar sua incrível diversidade e complexidade, a realidade que desafia os conceitos e as interpretações. É verdade que, nos fronts abertos onde há riqueza natural a explorar (e exportar), o mais fraco é esmagado pelo mais forte, o que tem dinheiro prevalece sobre o pobre.
Não há novidade nesse enredo universal, com tanto tempo de vigência. A novidade, em muitas situações e locais, é que não há mocinhos de um lado e bandidos do outro lado. O "modelo de ocupação”, causador de desequilíbrios, que resultam no caos, embaralhou os papéis e as funções, liberou as porteiras para a corrida sem regras ao lucro, ao salário, ao dinheiro.
Na sofreguidão de produzir mercadorias e mandá-las para consumidores externos (ao Estado e ao país), cada um quer aproveitar sua oportunidade conforme ela se apresenta. O que interessa é que o maior trem de carga do mundo continue a fazer suas nove viagens diárias pela ferrovia de Carajás, em fase final de duplicação, para 230 milhões de toneladas, até o porto no litoral do Maranhão, onde começarão a atracar os maiores cargueiros de minérios do mundo, da Vale, para levar a carga até o longínquo Oriente, de onde regressam com manufaturas, abrindo nessa relação um déficit que foi de 70 bilhões de dólares no ano passado e deverá chegar a US$ 100 bilhões neste ano.
As almas caridosas e solidárias com a Amazônia do outro lado da fronteira vêem no cenário tropical a luta entre Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, o primitivo puro e o moderno corruptor. Com essa visão, projeta à condição de mártires e heróis pessoas de carne, osso e interesses, como seres incorpóreos que fossem, legendas diáfanas que não resistem a uma investigação dos fatos.
Se o paraíso está perdido, a pureza se esfumaçou de há muito. Para tanto, serve de prova a rebelião de peões na hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Rondônia. Fronteira do caos, a Amazônia tornou-se também cadinho para a cultura do crime, tanto maior quanto mais alto está o cidadão na pirâmide social.
É a cultura da violência, que tornou a vida uma irrisão e se sofisticou ao se institucionalizar e adquirir a forma asséptica do crime de colarinho branco, cuja alvura depende da qualidade do advogado, do acusador e do julgador. Este conjunto, que podia funcionar como ponto de equilíbrio nas relações desiguais e árbitro dos conflitos, se tem deteriorado na perda da autonomia e no predomínio do espírito de corpo.
Advogados conseguem enfiar seus clientes culpados pelas lacunas da lei na busca pela impunidade com a conivência do fiscal da lei, que se cala, ou do julgador, que associa ao empreendimento. Por desespero ou dolo. Quando surge o momento de desfazer a cadeia ilícita e punir os que a formaram, o espírito de corpo se faz sentir, soprando proteção sobre os transgressores, mesmo quando há provas contundentes contra eles e até já se encontravam presos.
Os mecanismos de representação poderiam funcionar em defesa do Estado, não como uma mera atitude corporativa ou tradicional, mas para que os benefícios se estendam aos seus habitantes, e não apenas aos "ocupantes da fronteira” ou colonizadores, mas eles estão profundamente corroídos. É o cada um por si, salve-se quem puder e ganhe quem chegar primeiro ou for mais esperto.
A falta de uma ética pública responde pelas iniqüidades que se incorporaram ao cotidiano da capital, tornando dolorosa e selvagem a vida dos seus moradores. A população está entregue à sanha do desrespeito às normas da convivência em comum e do bem estar geral. Já a ausência de instituições comprometidas em conhecer e entender a realidade priva a capital do exercício do comando sobre o Estado, ameaçado de sofrer um golpe certeiro a pretexto de corrigir seus erros e deficiências.
A condição colonial, que impede o autoconhecimento e a autodeterminação, se faz sentir como nunca. Parece que vai prevalecer no momento mais decisivo da história do Pará. Contra o Estado.

domingo, 12 de junho de 2011

Reportagem do jornal liberal

DEPUTADOS FEDERAIS PEDEM PRESSA NA VOTAÇÃO DOS PROJETOS QUE RETALHAM O MAPA DO ESTADO

Um dos gigantes da Amazônia, com mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, o Estado do Pará voltou a ser, esta semana, alvo de separatistas que integram a Frente Parlamentar de Redivisão Territorial da Câmara dos Deputados.
O Pará seria fatiado com a criação dos Estados do Tapajós e Carajás e, ainda, pelo território federal do Marajó. Com isso, o território paraense cairia dos atuais 143 municípios para 62. A justificativa dos defensores da divisão é a ausência da estrutura de governo em Estados de grande extensão territorial, como o Pará, Amazonas e Mato Grosso. Se a separação se consumar, as novas unidades já nascem com milhões de hectares de terras griladas.
Retalhado com a criação do Estado de Carajás, no sul e sudeste de seu território, levando 39 municípios, proposta do ex-deputado Giovani Queiros, o Pará perderia a província mineral de Carajás, a maior do planeta e mais de 60% de seu rebanho bovino. Ceifado em 25 municípios no Oeste, em toda a calha norte do rio Amazonas, com a implantação do Estado do Tapajós, o Pará ficaria sem uma de seus principais atrações turísticas, as praias do rio Tapajós, com destaque para Alter-do-Chão, o Caribe Amazônico. E sem o arquipélago do Marajó, outro pólo turístico, transformado em território federal, os paraenses perderiam outros 17 municípios e veriam seu território ser resumido à Região Metropolitana de Belém e ao nordeste do Estado.
No caso do separatismo no oeste paraense, o mais inusitado é que a proposta de criação do Estado do Tapajós foi apresentada por um parlamentar que nem do Pará é: o senador Mozarildo Cavalcante (PTB), eleito por Roraima.
Autor da proposta de criação do Estado de Carajás, o ex-deputado Giovanni Queiroz diz que o fato que o motivou a lutar pela subdivisão territorial foi a vontade do próprio povo, que reclama constantemente o direito ao desenvolvimento, o qual só será possível com um governo presente. “Um Estado com as dimensões do Pará não consegue pensar e planejar o desenvolvimento, seja no aspecto fundiário, rodoviário, da infra-estrutura ou da segurança”, defende Queiroz, derrotado nas duas últimas eleições que disputou em solo paraense.
Se a população brasileira concordar com todas as propostas em estudo, o Brasil – que atualmente tem 26 Estados e o Distrito Federal-, passará a ter 39 estados e três territórios.
(Belém, Domingo, 13 de março de 2005)

Fonte : jornal Liberal

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Divisão do Pará

Amazônia Redividida:
elementos para a compreensão dos processos em curso de
redivisão territorial do Estado do Pa[1]
Prof. Dr. Gilberto de Miranda Rocha
Universidade Federal do Pará

Introdução
Uma viagem ao passado da Amazônia demonstra o quanto a redivisão territorial tem sido uma questão que se renova e muitas vezes se amplia, em diferentes momentos da vida política brasileira e com diferentes significados e justificativas. Algumas dessas justificativas fazem parte dos argumentos de praticamente todos os movimentos emancipacionistas de âmbito regional tais como: a grande dimensão territorial, o que inviabiliza a administração e prestação adequada dos serviços públicos, a desigual distribuição e alocação de recursos, o controle e a defesa do território e das fronteiras e, portanto, a necessidade de ampliação da presença do Estado, defesa nacional, ampliação da representatividade política regional, a estadualização como alavanca para o desenvolvimento regional, etc....E, outras recentemente incorporadas como a necessidade de controle do narcotráfico, as guerrilhas fronteiriças.
No presente trabalho procuramos refletir sobre a redivisão territorial da Amazônia, e particularmente sobre as propostas de divisão do Estado do Pará, focalizando dois aspectos subjacentes a esse processo de partilha territorial: a dimensão econômica da redivisão, i. e. o que estimula essencialmente em termos dos recursos existentes nos territórios e a dimensão simbólico – cultural através da qual se fundamenta a apropriação coletiva do espaço. Antes porém, refletimos sobre o reordenamento espacial do território, sobre as mudanças nas formas de apropriação e uso dos territórios induzidas pelas políticas públicas federais para a região nas ultimas três décadas. Ainda visando criar bases para a melhor compreensão das propostas, procuramos focalizar as mudanças sócio – culturais – emergência de novas territorialidades - e político-institucionais – alteração nas formas e mecanismos de gestão - desfechadas no Estado nas últimas décadas. Além desses aspectos, o presente trabalho pretende contribuir para aprofundar a reflexão sobre alternativas a divisão territorial assim como as atuais formas de gestão territorial: uma terceira via ?
1.O ParÁ sob intervenção : a federalização e a reestruturação espacial do território estadual
1.1. A estrutura espacial do território estadual ate a década de 1960
A compreensão dos processos de emancipação político – territorial – criação de novos estados – a partir da redivisão do Pará implica o resgate dos processos recentes de reordenamento espacial do território estadual. Nas ultimas três décadas, os processos de intervenção federal induziram a mudança da estrutura espacial herdada e construída a partir do período colonial.
Até a década de 60 a dinâmica espacial regional espelhava o funcionamento da economia baseada na exploração extrativista e alicerçada no sistema de aviamento e tendo como suporte a existência do produto, uma rede de núcleos e a circulação fluvial. A bacia hidrográfica desempenhava papel fundamental na estruturação da vida econômica como eixo de penetração, circulação e povoamento.
Entre o final do século XIX e primeira metade do século XX, o boom da borracha, e as sucessivas fases de exploração extrativa (caucho, castanha, borracha), a economia extrativista estimulou a produção de uma estrutura espacial que articulava os locais de extração / produção no interior do território com os centros exportadores de Belém através de uma rede de localizações, pequenos núcleos urbanos de povoamento cuja função primordial era, além de servir de moradia para a força de trabalho, pontos de comércio e concentração da produção na bacia hidrográfica, extrair o excedente econômico gerado(Correa,1992). Essa estruturação espacial na Amazônia se iniciou com a fundação de Belém, cidade estratégica e excentricamente localizada em relação a hinterlândia, a cidade primaz. Como ponto de abertura e penetração do território, constituía a sede das principais funções políticas e econômicas, do comercio atacadista e exportador, possibilitando a participação da região na divisão internacional do trabalho.
No Estado do Pará, esse sistema espacial condicionou o processo de produção, circulação da borracha (1890-1910), da castanha do para(1926-1964), de povoamento e de estruturação das principais cidades(Belém, Santarém e Marabá), concentrando a população na calha dos principais rios – Amazonas, Tocantins, Xingu e Tapajós. No âmbito desse sistema espacial, o controle sobre o território, sobre a produção, circulação, sobre a forca de trabalho envolvida assim como o excedente econômico gerado,era alicerçado em uma estrutura de poder oligárquico (Emmi,1988).
1.2. O reordenamento espacial do território estadual
A segunda metade da década de 60, representa um marco do ponto de vista do reordenamento político – institucional assim como das transformações espaciais e territoriais na Amazônia oriental. No âmbito das mudanças de ordem política e institucional do Estado brasileiro pós – golpe militar de 1964, são lançadas as primeiras medidas de política com o objetivo de assegurar a ação federal na região de forma efetiva. A “operação amazônica”, em 1968, redefiniu o arcabouço institucional regional ao criar a Sudam e o Incra. Posteriormente, em 1971, através do Dec. Lei n. 1164 / 71, são federalizados cerca de 66% das terras do território do Estado do Pará.
No período entre 1971 a 1987 o processo de distribuição e de regularização da apropriação das terras ocorreu sob a égide do Incra. Ao federalizar o território, o governo federal alijou as oligarquias regionais do poder de distribuição de terras, dado que retirou do controle estadual a regularização das terras, suprimiu a existência de terras comunais e devolutas para a instauração da propriedade privada e negou as posses imemoriais dos grupos indígenas, caboclos e ribeirinhos e ainda obstruiu o processo de ocupação não – controlada de terras devolutas. A ocupação seletiva das terras constituiu no principal mecanismo de gerencia territorial do Incra. Somente 26% do território permaneceu sob o controle do governo estadual.
No mesmo período, através de políticas de integração nacional e planejamento do desenvolvimento regional, (Pin, Proterra, Polamazonia e Programa Grande Carajás) abriu a região ao integrá-la através de eixos rodoviários, ao criar mecanismos institucionais de incentivo a apropriação privada das terras, a diversificação das atividades econômicas – agropecuária, mineração e industrialização – e ao desestimular a economia extrativista que assegurava o funcionamento da economia regional.
O estimulo a migração através de políticas de atração populacional constituiu mecanismo em vistas a formação de um mercado de trabalho regional. Somente no Estado do Para, ao longo da rodovia transamazônica, instituiu três projetos integrados de colonização através de uma concepção  urbanística de base rural.
Em vinte anos de intensas transformações, as políticas públicas reordenaram espacialmente o território estadual. Em 1970, existiam cerca de 83 municípios no Estado do Para. Como parte desse processo de reordenamento, a ocupação seletiva da terra estimulou a urbanização do território. Novos núcleos urbanos surgiram, seja como expressão planejada dos grandes projetos, as company towns, as agrovilas, agrópoles e rurópolis, seja como fruto do povoamento espontâneo e das contradições das políticas de desenvolvimento implementadas. Até 1996, havia sido criado cerca de 60 novos municípios, totalizando hoje 143 unidades político – administrativas.
O que é relevante nesse processo de reordenamento espacial do território estadual é o fato de que as novas formas de apropriação e de uso do território e de dominação política deram ao Estado do Pará uma nova configuração. A magnitude e a intensidade da intervenção federal transformou a estrutura e a dinâmica espacial estadual, posto que alterou a base material – geográfica anterior e afetou os circuitos de produção e acumulação tradicionais, desestruturando os atores sociais pré-existentes e seu poder político. O território estadual se reestruturou na medida em foram introduzidas novas atividades, novos padrões demográficos, o surgimento de novas cidades, transformando o padrão de hierarquização do sistema espacial e da rede urbana regional.
Em outro plano, as formas capitalistas de divisão técnica do trabalho que se implantaram, junto com a chegada dos fluxos migratórios de caráter heterogêneo desde o ponto de vista de sua composição demográfica, social e econômica, trouxeram como conseqüência à reestruturação do sistema de classes sociais e a complexificação sociedade civil. O especifico a reter é que, as modificações econômicas e sócio – políticas desencadeadas, levaram ao declínio os arranjos espaciais e as formas de dominação política construídas historicamente, demandando a construção de novos de novos pactos e o estabelecimento de novos laços entre os atores partícipes da nova realidade em formação ou mesmo demandar a construção de novas identidades territoriais. No sentido político do termo, essas mudanças, no atual contexto histórico, pode se associar às novas necessidades de remodelagem das estruturas político – administrativas. A complexificação das estruturas de classe sociais, os conflitos pelo poder, os movimentos sociais podem demandar novas figuras político – institucionais que produziriam novas normas, ordens e legitimações, para dar organicidade à nova estrutura espacial e territorial construída através do processo intervencionista. a transformação político – institucional.
2.O ParÁ dividido
2.1. O contexto histórico de emergência dos movimentos emancipacionistas
As propostas de criação de novos estados – Tapajós e Carajás - a partir da redivisão do território paraense, surgiram em um contexto histórico marcado pelo processo de redemocratização da sociedade brasileira, um contexto, a um só tempo, de crise e reestruturação das relações entre o estado e a sociedade. No âmbito nacional, na década de 80, de um lado, ocorre o aprofundamento da crise fiscal do Estado que vem a contribuir para a obsolescência econômica do Estado Nacional, expressa na ineficácia do governo federal no controle inflacionário e em tornar efetiva a sua ação planejadora . Ocorre uma retração significativa das políticas publicas regionais. Por outro lado, o país vivenciava, a falência do regime militar cuja expressão é perda progressiva de legitimidade frente a sociedade brasileira.
Na Amazônia, a intervenção federal que durante o regime militar, promoveu mudanças substanciais na base econômica e nas formas de organização sócio – política regional enfraquece. Intensos conflitos em torno do acesso a terra, o acirramento dos movimentos sociais frente a seletividade social, a concentração espacial e setorial dos investimentos e o depauperamento das obras de infra-estrutura e dos serviços públicos são expressões da falência da gestão estatal – nacional no espaço regional. Frente a instabilidade, o Estado procurou redefinir suas formas de ação regional.
A federalização do território, as poucos, é substituída por um processo de ação compartilhada entre os níveis de governo, para a qual se buscou o revigoramento do poder local e regional. O fortalecimento dos municípios – pólos, centro sub-regionais e a municipalização do território constituíram medidas de política que visaram, entre outros aspectos, a implementação de uma nova ordem política e institucional. Segundo Rocha (1999), o município constituiu instrumento tanto para o restabelecimento dos sistemas hegemônicos locais, redefinindo assim as alianças entre os atores políticos no âmbito do novo cenário econômico, político e territorial do estado do Pará quanto uma tentativa de restabelecer o controle e a regulação social. Um momento ímpar na busca da re-legitimação do Estado frente a sociedade regional.
Ressalta-se que, conforme Rocha (1999:76) “é em meio a esse revigoramento do poder local e regional e de mudanças na base econômica e política local que emerge os movimentos separatistas dos estado do Carajás e do Tapajós ”. O movimento constituinte de 1986/87 vem igualmente constituir o mecanismo institucional através do qual buscar-se-á a autonomia política.
2.2. A dimensão econômica do(s) território(s)
Os movimentos emancipacionista representam a expressão política e territorial do reordenamento espacial, econômico e sócio – político do território estadual. As mudanças processadas ensejaram o reordenamento dos sistemas hegemônicos locais e regionais com implicações no realinhamento das alianças entre os atores presentes na região. Trata-se de movimentos que almejam a apropriação política do território, como meio para tingir objetivos e interesses subjacentes as suas praticas espaciais.
“representam em outro patamar conflitos pelos meios, pela implantação  de recursos de exploração e pela apropriação dos benefícios e dos excedentes econômicos ali gerados, assim como apontam para a necessidade de estabelecimentos de novas formas (e reafirmação de antigas) de dominação político – social através da difusão de novos valores, símbolos e de afirmação de novas territorialidades. Trata-se de um processo de consolidação de territórios legitimadores das novas redes econômicas e / ou dos novos (e, em certas situações, também os velhos) interesses políticos”(Rocha,1999:229).
e, ainda enfatiza o autor,
“igualmente, apontam para a recomposição das relações de forcas emergentes na área, em que a divisão do território seria um meio de legitimação / legalização da apropriação e da definição de domínios territoriais por essas mesmas forças dominantes”(Rocha,1999:230).
Em que pese as dimensões culturais e sócio - espaciais – expressões das mudanças processadas na estrutura espacial do território estadual - subjacentes as propostas, a emancipação, a rigor, vem a se constituir um pretexto, tanto como forma de captação de recursos – instrumento de barganha política da(s) elite(s) regional(is) (o mito da necessidade) - quanto a possibilidade de construção de canais legais de legitimidade da apropriação dos recursos territoriais por essas mesmas elites.
Tab. N. 01. Para, Tapajós e Carajás: Os recursos e os Territorios

Os recursos e os Territórios
Para
Tapajós
Carajás
Área territorial
249.000 km2
708.868 km2
289.799 km2
População
4.000.000
958.860
1.100.000
Áreas de uso restrito (unidades de conservação e terras indígenas)

13

22

14
Icms (imposto sobre circulação de mercadorias e serviços)
79,49 %
7,0 %
13,51 %
Fpe (Fundo de participação do estado)
491.597.016[2]
115.365.280
137.629.573
Recursos
Industria, serviços e agropecuária
Minérios e agropecuária
Minérios e agropecuária

Fonte: Governo do Estado do Pará: Indicadores Sócioeconômicos, 2000.
2.3.O uso político do território: a produção política do consenso em torno da emancipação
A territorialização envolve sempre, ao mesmo tempo, mas em diferentes graus de correspondência e intensidade, uma dimensão simbólico – cultural, através de uma identidade territorial atribuída pelos grupos sociais como forma de “controle” simbólico sobre o espaço onde vivem, e uma dimensão mais concreta, de caráter político-disciplinar: o domínio do espaço pela definição de limites e fronteiras visando a disciplinarização dos indivíduos e ao uso / controle dos recursos ali presentes[3]. No âmbito do processo político de projeção territorial, essas duas dimensões se entrecruzam dando a cada uma das propostas uma singularidade que se substantiva na diferença contida no território, na projeção sobre o espaço “de estruturas especificas de um grupo humano, que inclui a maneira de repartição, de gestão e de ordenamento desse espaço”(Brunet et al,1992:436 apud Claval,1999:11) e, ao mesmo tempo, na cristalização de representações coletivas, dos símbolos que se encarnam em lugares nos quais estão inscritas as existências humanas (Claval, 1999:11).
2.3.1.O poder  disciplinar: o controle, a defesa e o estímulo a ocupação efetiva do território.
A divisão territorial da Amazônia, ao longo do presente século, tem sido uma questão recorrente não somente no marco da discussão e de propostas como igualmente na efetivação da divisão. Pode-se mesmo dizer que a atual configuração político administrativa é recente e fora moldada a partir de 1911 com a questão acreana. Naquela ocasião a apropriação do excedente econômico gerado pela economia extrativa da borracha mobilizou parlamentares e as elites tanto do Pará como do Amazonas. A federalização do território foi a solução à época encontrada. Na década de 40, novamente partilhar a amazônia foi objeto de ampla discussão no âmbito da organização do Estado brasileiro e da integração e de manutenção da integridade do território nacional. Os anseios geopolíticos de controle territorial e das fronteiras elevariam a divisão territorial como medida visando estimular a ocupação e ao povoamento regional. A criação de postos de vanguarda nas fronteiras, ampliar a presença do estado federal, de federalizar parte dos territórios estaduais justificava-se.
Getúlio Vargas estimulado pelo Conselho de Seguraça Nacional, através do decreto-lei n. 5.812, de 13 de setembro de 1943 cria os Territórios Federais: Guaporé (Rondônia), Amapá e Rio Branco (Roraima) na Amazônia. A preocupação com a imensidão territorial e o vazio demográfico amazônico sempre foi ponto de convergência entre ideólogos e geopolíticos e os militares. A divisão territorial tem sido assim um meio de indução da civilidade, da apropriação real e efetiva do território pela nação-estado, parte integrante da construção territorial do Estado Nacional. Como mecanismo jurídico e político, a divisão do território era (e é) parte integrante da organização geográfica do Estado, do controle, da administração e da gestão territorial.
Esses mesmos princípios recentemente foram ressucitados, revividos em parte pelas recentes propostas. A leva de movimentos emancipacionistas nos quatro cantos do Brasil durante o processo constituinte de 1986/87, (somente no Pará foram dois: estado do Carajás e estado do Tapajós) induziu a criação, após a promulgação da Constituição Federal de 1988, de uma Comissão de Estudos Territoriais(1989). O Relatório Final foi apresentado em janeiro de 1990. Foi recomendada a redivisão da Amazônia com a criação dos Territórios Federais do Rio Negro, Território Federal do Alto Solimões (dividindo o Amazonas), o Território Federal do Araguaia (dividindo o Mato Grosso) e a criação do Estado do Tapajós (dividindo o Estado do Pará).
2.3.2.a dimensão simbólico – cultural e a construção da identidade territorial
Os lugares, as regiões são “freqüentemente fontes de identidade coletiva e também de atividades econômicas”(Brunet et al.,1992:232), fontes de recursos, de possibilidades de reprodução biológica e sócio – cultural. Como suporte material e base simbólica, o território constitui instrumento indispensável a construção das identidades coletivas.
Dessa forma, freqüentemente, ao nos referirmos ao Oeste do Para  e Baixo amazonas(Tapajós) e ao Sul e Sudeste do Para(Carajás), nos referimos a espaços diferenciados, singulares no âmbito do território estadual. As propostas de criação de novos estados são projeções territoriais, são manifestações coletivas – coordenadas ou não - que acenam distintamente para a apropriação política do seu espaço de vivencia e produção – apropriação e uso dos recursos contidos. O espaço e a cultura participam desse processo dado que representam o suporte material (legado ou construído) e a base simbólica sobre os quais são forjadas e construídas as identidades territoriais através da difusão de uma ideologia territorial.
A idéia de tradição e de cultura local e regional (presente no baixo amazonas, no tapajós) ou de pioneirismo dos desbravadores (presente no sul e sudeste do Para) contribui para elaborar a re – construção peculiar da historia local, conferindo-lhe unidade imaginaria. A idéia complementar de região, presente no ambiente construído ou não – nos lugares memoráveis, a terra natal, o espaço de vida e produção – “terra conquistada com esforço e trabalho, canaã”, “região em  que todos tem um lugar ao sol” (sul e sudeste do Para) produz a noção de unidade territorial. A eficácia simbólica dessas idéias mobilizam a sociedade regional em torno do projeto emancipacionista. O uso político do território passa a ser, indiscutivelmente um instrumento de grande eficácia para atingir a unidade e o consenso em torno da região.
2.3.3.da alocação de recursos, da produção do território e do estimulo ao desenvolvimento regional
A alocação de recursos de forma mais eqüitativa tem sido a outra fonte de reivindicação para emancipação de territórios, em Estados ou mesmo em Territórios. No caso do Tapajós se releva a ausência de uma política específica para a região oeste do estado do Pará, exemplificada pela carência de infraestrutura. Enfatiza igualmente a fragilidade administrativa e a retirada de recursos do Oeste do Pará sem uma contrapartida real para a região. E, conclui, referindo-se às vantagens de representatividade política que a criação de novas unidades político-administrativas traria para o desenvolvimento regional e a ampliação da consciência política.
3. Pará, capital Belo Monte : a proposta de transferência da capital como instrumento geopolítico para conter a redivisão !
Nos anos oitenta, época de eclosão dos movimentos, conforme Rocha(1999), a partilha territorial representava uma forma peculiar de captação de recursos frente ao depauperamento das infraestruturas e do descalabro da oferta dos serviços públicos.
 “A projeção e a tentativa de apropriação política do novo território representou, grande instrumento de barganha que se traduziu na definição de investimentos de infraestrutura por parte do governo estadual, para neutralizar o movimento e promover a efetiva integração e manutenção da unidade política do território paraense” (Rocha,1999:77)
            O ressurgir das propostas de criação dos estados do Carajás e Tapajós, estimulou o governo do estado a busca de alternativas à redivisão territorial. A Fundação Getúlio Vargas foi contratada na forma de consultoria para a realização de diagnóstico sobre a estrutura espacial e econômica e necessidades de recomposição. No diagnóstico, Belém se assevera como um problema para o comando da estrutura econômica e espacial do território estadual. A excessiva concentração das atividades em no entorno de Belém e a baixa integração estadual apresentava-se, de fato, como estímulo a desagregação territorial.
            A partir de clássicos preceitos geopolíticos o governador Almir Gabriel propõe a transferência da capital do Estado do Pará para a localidade de Belo Monte (parte do município de Anapú, parte do município de Vitória do Xingu, na volta grande do Xingu. Ao centralizar geograficamente o poder político do Estado do Pará, a exemplo do Brasil ao construir Brasília, visava interiorizar a economia estadual, reordenando a distribuição das atividades econômicas e produtivas, redirecionando os fluxos e parte dos aportes demográficos concentrados em Belém, enfim estimulando como no passado recente a reestruturação espacial do território. A crença do governador residia no fato de que reordenando novamente a espacialidade estadual poderia conter o processo de redivisão territorial.
4. Considerações Finais : Para além da redivisão, por um projeto político regional !
            As propostas de redivisão do Estado do Pará expressam processos de reconfiguração espacial e de rearranjo das relações de poder no âmbito estadual. Não são processos artificiais, são produtos legítimos de territorialidades emergêntes e que reivindicam a apropriação política do território, sobre os quais têm domínio. No entanto, é lícito considerar o fato de que a existência da diferença e da singularidade não necessariamente pressupõe a separação. Ao contrário do que ao longo desse século norteou a construção dos Estado-Nação, a homogeneidade linguística e étnica – cultural, o Estado pós – moderno deve operar pela diferença, pelo respeito a diversidade cultural e étnica existente. Nesse contexto, tanto as propostas de divisão como a transferência da capital do Estado do Pará, formulada pelo Governo do Pará, estão na contramão de uma gestão territorial que der conta da complexidade que hoje é o Pará. A sua unidade política e territorial somente poderá ser alcançada frente a uma ampla redefinição conceitual da identidade paraense, fundada na diversidade e não na homogeneidade.
Ademais, é importante ainda frisar que para tanto, refazer o processo de gestão territorial é urgente e indispensável. Um novo processo que seja tomado como princípio fundamental o poder popular, a participação da sociedade civil nos processos de decisão sobre o futuro de cada região do Estado do Pará. Uma espécie de federalismo à escala estadual. O governo do território não se resumiria às instituições locais (ainda que estas sejam fundamentais), mas a todas as formas de organização em níveis escalares distintos e da sociedade civil que, de forma negociada e interativa, participariam e competiriam na resolução dos problemas que envolvem determinado âmbito local e sub - regional. A tomada de decisão tende a ser concebida como resultado de um processo de interação entre atores individuais e/ou coletivos, atores esses que dispõem de representações diferenciadas no contexto da negociação. Isto quer dizer que tanto em nível interno a um determinado território como no seu relacionamento com outros níveis escalares de poder, a participação compartilhada passa a ser o norteador nas novas formas de governo do território. Os territórios organizados, assim, passam a exercer um papel completamente novo atualmente (Boisier,1996).
            As possibilidades de desenvolvimento local e regional estariam ligadas à capacidade de organização que cada âmbito espacial tenha de acumular poder político, algo que se obtêm mediante o consenso político, o pacto social, a cultura de cooperação e a capacidade de criar, coletivamente, um projeto de desenvolvimento. A criação de poder político e de busca do consenso e pacto social local e regional torna-se relevante para a construção de um projeto político regional, instrumento indispensável na formulação de estratégias em vistas o alcance do desenvolvimento local e regional.
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[1] Reflexões desenvolvidas a partir do projeto Municipalização do Território na Amazônia. Proint-2001/UFPA.
[2] Valores em reais.
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